A Introdução

A partir de hoje, terei o prazer de enviar semanalmente à PT-NET, com a maior regularidade possível, um texto do acervo literário português, partilhando com os “pt-neteiros” o prazer de sua leitura. Os textos serão preponderantemente em prosa, de carácter ficcional. Ora, tendo em conta a necessidade de se comunicarem também conteúdos desconhecidos aos leitores inicialmente visados, a área de non-ficção será igualmente representada: a maioria de textos tem servido ou há-de servir de apoio aos estudantes do curso de português nesta Faculdade de Letras de Zagreb. E por isso o título de crestomatia, e não o de antologia, tendo em conta o valor etimológico dos dois termos e o significado de utilidade no primeiro.

A presente crestomatia não tem por objectivo a exaustividade: as condições em que nasceu não o permitiriam, mesmo se tivesse tais pretensões.

Ao invés disso, no que diz respeito à qualidade das obras inseridas, o autor desta crestomatia tem procurado alcançar os mais altos critérios.

A técnica de publicação, baseada nas fotocópias, foi um dos factores objectivos que também influenciou o perfil da colectânea: as circunstâncias mais que precárias que vivemos no nosso País, restringiram as possibilidades de escolha de autores e textos e de sua apresentação.

A segunda restrição, e a de maior peso, tem sido condicionada pelo modo de apetrechamento da nossa biblioteca, que, desde 1991, não pôde comprar nem um só livro português ou lusófono.

***

O objectivo essencial desta crestomatia é fornecer aos estudantes do curso de Estudos Livres de Língua e Literatura Portuguesa, desta Faculdade de Letras da Universidade de Zagreb, um instrumento de trabalho em que terão disponíveis os textos em português, de acesso difícil nas circunstâncias actuais em que procuram aprender a dominar a língua portuguesa. Ela pretende ser-lhes útil não apenas do ponto de vista formal, mas também como veículo de conteúdos que os aproximam do mundo lusófono.

Alguns dos textos são completos, enquanto outros se apresentam apenas em fragmentos.

Todas as notas de rodapé são de minha responsabilidade. As notas que existiam nos originais foram reintegradas no texto, inseridas entre parênteses em sítios adequados.

Qualquer sugestão relativamente à escolha e eventual inserção de autores ou textos é mais que bem-vinda e provocará um sentimento agradável de apoio e acolhimento: às vezes é inevitável a pergunta se o esforço investido em tudo isso vale a pena.

O sistema gráfico adaptado para a colocação de textos à rede é de fácil compreensão: os diacríticos são colocados depois do carácter em que seriam escritos no texto impresso. Deste modo, se alguém preferir a variante impressa, facilmente poderá, no processador de texto que utiliza, escrever um macro para realizar todas as substituições necessárias. Penso aqui sobretudo nos leitores de português no mundo, a que as colectâneas de textos em lusa língua de tipo semelhante sempre fazem falta.

Assim como sempre faziam falta ao nosso leitor de português, até que o então ICALP, Instituto de Língua e Cultura Portuguesa, em 1991, o deixou de enviar a Zagreb sem aviso prévio, cortando simultaneamente o envio de qualquer publicação, deitando-nos para o isolamento da língua e cultura portuguesas, mantendo-se até hoje essa situação, deplorável e inaceitável, em que os estudantes e docentes, são privados de um leitor, locutor nativo de português, a detrimento do intercâmbio cultural luso-croata e da presença de língua e cultura portuguesas no nosso meio.

(9 de Março de 1994)

A crestomatia

Alguns assinantes da PT-Net, leitores fiéis da Crestomatia, têm me perguntado porque escolhi esse título. Além do – provavelmente fraco – jogo de palavras com quarta (feira), onde “(feira)” corrige a pressuposição que se trate de um trabalho de quarta categoria, o termo-chave é o de crestomatia.

A palavra crestomatia é uma palavra composta, registada no início do século XVII. É composta de dois elementos, ambos gregos, de chrêstos, que significa “útil”, e de máthesis, “aprendizagem”, do verbo manthanein que significa “aprender”. O significado do substantivo crestomatia seria portanto “aquilo que é útil para a aprendizagem, que é útil no processo educativo” e refere-se a colectânea de textos escolhidos em função do ensino: recolha de fragmentos de prosa tirados de autores clássicos, célebres, que escrevem “bem” e são “bons” para o ensino.

O termo vizinho, hoje frequentemente misturado com o de crestomatia é o de antologia. Sendo anthos a “flor” em grego, a antologia seria uma recolha de textos ou excertos de textos, mas escolhidos mais com base num critério estético, não sendo necessariamente conotada com a ideia de ensino. Além disso, o termo antologia usa-se com mais frequência para a poesia, enquanto a crestomatia se referiria mais à prosa.

Existe mais um termo semelhante em português (e não só em português): o de florilégio, de início do século XVIII. O florilégio tem também uma conotação de avaliação estética, embora possa denotar qualquer recolha de textos considerados representativos, conforme vários critérios adoptados. Vem do latim moderno florilegium, palavra forjada segundo o modelo de spicilegium, de spica, “ponta, espiga”, que passou a denotar uma espécie de ligadura, utilizada para amassar os documentos ou páginas avulsas de qualquer texto, diplomas, etc. A palavra espicilégio existe, creio, ainda hoje em português, mas mais para a papelada administrativa, lato sensu.

E, por fim, o(s) analecto(s) é mais um termo vizinho aos referidos, que podia ter sido utilizado para a colectânea de fragmentos, literários mas não só, que vem do grego análectos, “recolhido”, através do latim analecta, que designava o coitado escravo que recolhia os restos de refeições ou o compilador de frases e palavras – exactamente como o coitado autor desta Crestomatia de Quarta (Feira).

Com um abraço,

Želimir Brala

(24 de Janeiro de 1996)

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